Todos os dias eu vejo como a fala muda a historia de uma pessoa dentro do processo psicanalítico. E não só a fala realmente dita e materializada, mas também toda a linguagem que nos habita enquanto psique. Vejo os silêncios da vida toda, o que foi escondido, mas que fica latejando até sair em forma de palavras, choro ou sinais na pele, dentre outros tantos sintomas. Vejo também o que se fala e o que realmente quer se dizer, mas só tem liberdade para aparecer nos sonhos ou nas explosões de raiva. Vejo o que se sente mas que não encontra palavras pra que se possa ser definido em um vocábulo daquele idioma e aí fica na espera, aguardando até caber em alguma coisa. Vejo também quando as emoções estão misturadas demais e o paciente fala que sente um coisa quando na verdade tem um romance de 500 páginas pra me contar que leva pra uma definição totalmente diferente.
A fala tem essa potência na terapia.
Representa o universo inteiro de uma pessoa que eu vejo pela telinha, 1h por sessão, geralmente uma vez por semana.
Como pode ser tão potente e transformar a vida de alguém a partir disso?
Vou te falar um pouco a respeito.
Falar organiza.
Quando você começa a contar a sua história pra um terapeuta, algo dentro de você começa a trabalhar. A memoria traz alguns fatos, organiza algumas coisas por ordem de datas, cria uma narrativa. Em poucos minutos sua vida inteira está disponível para ser contada, na sua mente.
Mas falar disso, leva outro tempo. Porque as palavras não são só palavras. Elas carregam muito mais que isso. E é esse abstrato que você traz para as sessões.
Então, em um primeiro momento, a fala faz um movimento de organização dentro de você: recolhe as informações, o que é importante, o que quero falar agora, o que vou deixar para depois, vou falar em linhas gerais, vou detalhar. Um espaço quase consciente.
Mas a hora que esse discurso passa para a sessão e se materializa na sessão, aí outra coisa está acontecendo. Você está escolhendo como dizer, com que emoção contar e de repente uma emoção fica mais forte ou você bloqueia algo e a fala para.
Acontece também de você falar exatamente como organizou e quando você se ouve: espera, então quer dizer que… Ou ainda: mas acho que não falei tudo, ou não foi bem assim que aconteceu.
Tem mais alguma coisa entre o que você pensou e organizou e o que você realmente falou. Tudo isso importa para o seu processo terapêutico.
Por que falar com o terapeuta não é só desabafo?
Tem também uma outra dimensão da fala nas sessões que é o alívio através da fala, o que popularmente chamamos de desabafo. E que é muito importante. Espaços para desabafar são importantes.
Mas não é disso que se faz a terapia somente. O desabafo é um pedaço, digamos. A psicanálise vai procurar as causas: por que esse assunto do desabafo causa tanto aborrecimento e desconforto em você? Com que frequência acontece? Com o que se conecta?
E uma parte informação importante sobre desabafo: lá no final do século 19 antes do Freud fundar a psicanálise, ele e um outro médico perceberam que só o desabafo (ou processo catártico como eles chamavam) não era o suficiente. Aliviava por algum tempo, mas logo outros sintomas surgiam. E daí é que ele foi caminhando para um processo mais estruturado e que levava em consideração essas conexões da historia presente com outros aspectos da vida daquele paciente.
Por que falar com o terapeuta não é o mesmo que falar com um amigo?
Então agora você já entendeu que tem um processo bem complexo acontecendo quando vem para falar numa sessão de psicanálise e entendeu também que o processo terapêutico não é sobre desabafo, certo?
E aí entra um outro ponto bem importante sobre fala e terapia: muitas pessoas acham que falar com o terapeuta é como falar com um amigo.
Eu diria que sim e que não.
Mas é importante diferenciar ambos. Isso porque muitas vezes a análise é o único espaço de uma fala livre sobre si mesmo, o que a gente aprende que deveria poder fazer com outras pessoas também. Mas a vida não é sempre assim, né. E as sessões com cada vez mais frequência no mundo em que vivemos são o único espaço de relação verdadeira para muitas pessoas.
E claro, o terapeuta é um ser humano e fora da sessão ele tem uma vida como qualquer outro ser humano, mas na sessão, a função não é de amizade somente.
Na sessão estou ouvindo você profundamente, mas eu não conto da minha vida, é sobre você. Eu não julgo o que você traz, eu construo um espaço acolhedor e seguro para você entender que pode falar sobre qualquer assunto.
Muitas vezes as conexões que aparecem na sessões são sobre assuntos que você preferia esconder ou não enxergar simplesmente e talvez com um amigo você contasse de outra perspectiva, talvez não contasse os detalhes todos.
Pra um amigo talvez você fale daquele trauma uma vez, na terapia talvez você precise falar sobre ele durante meses.
Então, eu estou ali com você, ouvindo, apoiando, mas também questionando, procurando conexões que você não está vendo, apontando padrões e repetições que você nem imagina.
Falar, escutar, reorganizar
Então, olha como o processo terapêutico é complexo. E como a fala traz muito mais dimensões do que conseguimos pensar num primeiro entendimento.
Por isso é tão importante perceber que terapia não é sobre respostas prontas, nem sobre soluções mágicas, é um espaço de fala, escuta e reorganização de pontos muitos profundos.
Se você sente que tem algo aí dentro querendo ganhar forma, talvez valha a pena se escutar. E começar a falar com quem pode realmente te ouvir.
