Ansiedade, depressão e o tempo da psique: por que o sofrimento mental não passa rápido?

Vivemos em um tempo acelerado. Aplicativos de produtividade, notificações constantes, metas mensais — tudo parece exigir uma resposta imediata. Mas ansiedade e depressão não seguem esse ritmo. O sofrimento psíquico tem um tempo próprio. E é sobre esse descompasso que precisamos falar.

Quem convive com sintomas de ansiedade ou depressão, ou mesmo quem acompanha alguém nessa vivência, sabe como é difícil entender por que certas dores demoram tanto para passar. A mente parece presa a repetições, a ciclos que se arrastam, a sensações que não se resolvem. E não raro vem a cobrança: “Mas por que eu ainda estou assim?”

O que ansiedade e depressão revelam sobre a nossa forma de viver

A ansiedade nasce da expectativa constante de dar conta de tudo agora, mas principalmente do futuro, que pode ser amanhã ou ano que vem. De antecipar o que pode dar errado. De responder rapidamente a todas as demandas externas. Uma proteção constante em forma de hipervigilância e controle.

Já a depressão, por outro lado, parece suspender o tempo: tudo fica mais lento, sem cor, sem perspectiva. A defesa enquanto um ninho em si mesma, sem energia para o fora, apenas tentando tornar-se invisível, mas presa numa contradição: quer existir e ser vista como antes, sem saber exatamente quando foi esse ‘antes’, ou carrega a certeza de ter falhado e agora estar sendo punida por isso.

As duas experiências, tão diferentes, têm algo em comum: mostram que há algo na forma como estamos vivendo que está adoecendo a psique. O mundo contemporâneo nos pede velocidade, mas a subjetividade precisa de pausa. O mundo exige performance, mas o inconsciente exige o respeito ao próprio tempo.

Não é à toa que tanta gente tem se sentido esgotada, mesmo “sem motivo”. É que o sofrimento psíquico nem sempre vem de algo concreto e visível. Ele também vem da repetição silenciosa de pressões, frustrações e silenciamentos acumulados ao longo do tempo. E qualquer que ele seja, gasta muita energia e traz toda a atenção do corpo para aquele sofrimento, podendo simplesmente tirar a pessoa de qualquer que seja a atividade que ela esteja exercendo, seja trabalho, cuidado com a família ou planos para estudar, viajar.

Por que procurar atalhos não funciona com saúde mental?

Além disso, diante do sofrimento, estamos sempre buscando soluções imediatas e definitivas. Como se fosse possível que a psique simplesmente se concertasse ou se enquadrasse em algo. Um vídeo motivacional, uma nova rotina matinal, um remédio, um curso de inteligência emocional. Nada disso é necessariamente ruim — pode inclusive ajudar —, mas não é isso que resolve.

O sofrimento tem uma história que precisa ser percebida, muitas vezes reorganizada. E leva o tempo que precisa para que aquela psique consiga fazer esse trabalho. Importante dizer que não se trata de buscar traumas escondidos no passado a qualquer custo, mas de reconhecer que somos atravessados por experiências, afetos, vínculos e repetições inconscientes.

Por isso, não é possível ‘curar’ uma dor psíquica da noite para o dia. Não porque a pessoa não quer melhorar ou porque não está tentando, mas porque o processo de elaboração exige um tempo que tem uma lógica própria, a lógica do interno humano que não responde às demandas do relógio, mas de si mesma, apenas. E é justamente na terapia psicanalítica que esse tempo pode ser respeitado e elaborado.

O tempo como parte do cuidado

Ao contrário da lógica da produtividade, o humano não se orienta indefinidamente por metas e promessas de solução. É preciso passar pelo sofrimento. Sem fugir, sem esconder, e sim, atravessá-lo um passinho de cada vez, conforme sua psique aguenta, com gentileza e calma.

Pode parecer muito tempo, mas eu pergunto se alguns meses ou até alguns anos se são tanto tempo que não valem o investimento de esforço para que a vida se torne melhor no futuro.

Fazemos esse investimento em cursos, faculdades, trabalhos, mas entendemos que investir esse tempo em algo tão subjetivo, ainda que claramente mude totalmente o sentido da vida, não é aceitável. Até que a ajuda é imprescindível.

Não precisamos chegar nesse ponto.

E isso é construir saúde mental na possibilidade do dia a dia. Entender essa dinâmica do seu tempo interno e separar o que é seu e o que é do mundo de fora, é autocuidado do mais fino trato.

Porque cada sujeito precisa construir o próprio caminho de elaboração e cuidado de si. O sofrimento não desaparece só com palavras prontas — ele precisa ser atravessado com presença e continuidade.

Em tempos em que tudo nos empurra para seguir adiante rapidamente, sustentar um espaço de pausa e escuta pode ser, por si só, um ato de resistência. Para isso serve a psicanálise.

Respeitar o tempo do sofrimento psíquico é respeitar a si mesmo

Por isso, é importante lembrar: você não está atrasado em nada. O seu tempo é legítimo. O caminho do cuidado psíquico não é linear nem imediato.

A pressa em “voltar ao normal” pode acabar intensificando a dor. Muitas pessoas se sentem frustradas por não conseguirem se “curar” logo, e esse sentimento de fracasso vira mais um peso em um processo que já é difícil.

Então, gentileza, calma e disposição para olhar a si mesmo de forma profunda é o que digo que cura e transforma vidas.

E se você precisa de ajuda para esse caminho, conte comigo.

Daniela Nunes Psicanalista @2024 - Todos os direitos reservados